Al

Warning: abuso e mutilação. Não leia se for um trigger pra você. Tem capacitismo também. Compus algo realmente estranho, me desculpem por isso ToT. #me_sinto_embaraçada. Façam melhor, leiam a série do Felipe ("Não Existem Príncipes Encantados").

O mesmo barulho de todas as noites. O ensurdecedor ruído noturno. Alberto cobria os ouvidos na tentativa de esvaziar a mente do que escutava. Passos de quem calça botas pesadas e baratas. Havia algo de natural no costumeiro barulho, ele sabia reconhecer. Um, dois, três, quatro, cinco, seis - toc toc. "Acorda, coisa feia!". 

Ele gemia como um doente e chorava tal criança sem mãe. "Cala a boca! Cala a boca, seu velho surdo! Eu já ouvi!". O homem chutou a porta e arrombou sem esforço, madeira antiga cede rápido. Pegou o rapaz pelos cabelos e arrastou à cozinha. "Me escuta, quem disse que você tinha que dormir?". O menino continuava com os ouvidos tapados. A boca serrada para segurar o choro. 

Alberto fazia dezoito naquele dia. Nunca fora à escola. Tão magro que lhe contavam as costelas. Trabalhava de dia roçando e, à noite, preparava a comida do senhor que o criara. Um pensamento que não saia de sua cabeça era sair do esterco onde morava. O único problema de se pensar nisso era o sofrimento de não poder. O jovem era desprovido de aparência adequada para aparecer em público. Alberto não devia ter nascido, como dizia o idoso. A mãe implorou para que o velho o criasse, pois não suportou a ideia de deixá-lo na estrada. Mas, ao olhar para ele, lamentava profundamente. Foi amaldiçoada por todos. O boato de que ela havia cometido um grande pecado para conceber um ser tão horrendo se espalhou. Ela partiu sem a criança. 

Um dia, cansado de tanto abuso, Alberto pegou a faca e mirou onde faria um corte profundo. Decidido a acabar com sua vida miserável, se trancou no banheiro. Encarou o objeto pontiagudo e viu seu rosto. Chorou mais uma vez, e mais uma vez perdeu a força para completar o plano. Nessa noite o velho dormiu no sofá e não acordou. Ele o enterrou na parte de trás do quintal. Cobriu a face com uma bandana e partiu para um lugar em que não o olhassem de cara torta.

Voltarei com a seção "mande seu conto", tão logo possa arrumar as coisas no blog (recebi muita coisa...mesmo avisando que não estava mais recebendo -___-).

Comentários

  1. Esse texto é bem diferente dos outros seus, o que não significa que seja ruim, longe disso! Acho que serviria muito bem como roteiro de um curta sombrio - e eu não recrimino de maneira alguma a atitude final de Alberto, por mais estranho que isso possa parecer.

    ResponderExcluir
  2. Olá Emilie, querida :D Deveras receber mesmo, é sempre um deleite ler e ser lido por aqui.

    Bom, achei bem profunda, apesar de breve, as características do persona, em poucas palavras o narrador adiantou os sentimentos obscuros, sem sequer precisar descrevê-los, isso ficou completo, um prato cheio... Mas o desfecho, friamente preciso dizer... Encantador e necessário :D

    Passar bem, em breve trarei linhas para tu também.
    Até mais :D
    xoxo

    ResponderExcluir
  3. Precisei ler mais de uma vez para absorver tudo. Engraçado que, quando lemos, damos aparência para personagens e, mesmo o conto dizendo que o Alberto tinha aparência horrível, minha mente só conseguiu imaginar a magreza dele... Provavelmente porque simpatizei com ele e não conseguia vê-lo como um "monstro"... E eu não sei o que isso diz sobre mim, haha.
    Só consigo esperar que ele tenha encontrado a felicidade em algum lugar.
    Abraços~

    ~ NankinDust.com.br

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Teste de Coragem

Dois gatos

Teto de verniz