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Mostrando postagens de Setembro, 2014

Última Sessão

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Os pés doem por causa do salto alto. A escada não ajuda. “Por que não colocam um elevador?”, ela reclama. Derruba as chaves. Suspira. Pega elas e destranca a porta. Casa. Lar. Alívio. Arranca os torturadores dos pés ali mesmo na entrada, nem quis sentar primeiro. Assim que pisa com os pés descalços no chão, sente algo estranho. Tira de cima e encontra um envelope. Sem remetente. Não deve ser uma bomba, então não custa nada abrir. Dentro do envelope havia um convite. Não, não um convite. Um ingresso. Dizia “A Aventura Bizarra de Lola. Última Sessão. Data: Assim que possível”.
“Só pode ser brincadeira” dizia ela mesma, a Lola, a si mesma enquanto lia o que provavelmente seria alguma pegadinha de um vizinho. Talvez as crianças. Ou algum colega de trabalho engraçadinho? Guardou no bolso. Sem paciência nem corpo para ir até a lixeira jogar fora. Se joga no sofá. Medita. Estala os ossos. “Quero só um banho”. Levanta, com preguiça. Se despe no banheiro e entra no chuveiro. Banho tão bom que a…

10 Minutos (por Vitor Costa)

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                        "Você tem 10 minutos."


O pranto cessou, um silêncio penetrante dominou a sala. Kevin fitou o relógio com os olhos secos de perplexidade, não sabia mais o que fazer ou que dizer para contornar o inevitável.           Avistou a paisagem da janela com a frustração de nunca ter reparado naquela pintura viva. Era a dança das árvores com a brisa, as folhas balançavam delicadamente e pareciam convidá-lo a participar do momento. Queria poder dizer às bailarinas do ar:
"Calma, já estou indo."
           Um sopro de realidade levou aquele breve instante, que durou uma vida inteira, para as veredas de sua memória tão vívida. Mesmo na certeza da morte, ele não deixava de pensar nela, a mulher que foi vítima de seu egocentrismo característico:
"Ah, Lara, o meu arrependimento é do tamanho do mundo." 
             Dizem que momentos antes da morte, a vida inteira passa diante dos nossos olhos. Mas para Kevin, tudo o que ele enxergou na sua mente f…

O rito

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Foi assim, numa noite quente de outubro que Andressa vestiu as roupas sacerdotais para iniciar o ritual. Estavam na sala seu irmão, sua irmã mais nova, e um gato. Testemunhas. Alguém precisava verificar se daria certo dessa vez. Se não seriam interrompidos pelo vulto ambulante de seus pais. O porão fora escolhido para o rito de passagem. Uma aranha pousou na cabeça do irmão e o fez pular da cadeira. "Xiiii", ela fez um movimento pedindo silêncio. Era de fundamental propósito que o gato da casa estivesse presente. No pergaminho dizia que qualquer quimera criada em moradia própria poderia participar. Bem, eles eram iniciantes e o gato fora escolhido. 
- Lê logo isso pra eu ir dormir - resmungou o irmão. - Faz silêncio - disse a mais nova.
Andressa olhou de soslaio, um pouco irritada. O porão era mal iluminado, e as velas queimavam rápido. Seu inglês não fora praticado, o que tornava a leitura um tanto complicada. 
- Aff, não vai conseguir traduzir a tempo. Vou deitar - o irmão…