Teste de Coragem

    Uma caveira encarava Marcelo com os buracos fundos no lugar dos olhos. Ao menos ele via “olhos” naquele crânio.  Suas pernas tremiam como num deja vú. Cena de filme de terror assistida em noite de sexta-feira treze. Sabia que lhe dariam pesadelos. Ou seria a comida? Vai saber... aquele feijão... 

      “É apenas por uma noite...”, dizia baixinho, convencendo-se de que não sentia medo. Alexandre, o valentão da escola, propôs uma noite no casebre do Velho Antônio. Diziam ser mal-assombrado pelo desuso e por causa da carranca do velho, assustadora o suficiente para deixar crianças sem dormir. Agora falecido, a casa não pertencia a ninguém, exceto aos agentes imobiliários. Marcelo sabia que se sua coragem estivesse intacta, pela manhã, estaria no grupo dos mais populares da escola. (O que, para um garoto de doze anos, significava status de nobreza). Tudo ocorreria como o esperado se ele ficasse próximo a Eduardo, o Dudu.

          Dudu era o garoto mais bacana da escola. Do tipo que os garotos querem ser amigo, daqueles em que as garotas grudam feito chiclete. Ao contrário dos outros, não falava asneiras sem pensar, sua conversa era agradável. Eduardo “funcionava” como um irmão mais velho para muitos meninos ali reunidos. Marcelo ficou próximo de Dudu para disfarçar seu medo. As velas foram acessas. Alexandre passou a noite contando histórias mal-assombradas, de aparições, etc.

        A noite deu lugar ao dia. As luzes do sol atingiram os rostos dos meninos amontoados no salão. Um por vez foi se levantando, tirando as remelas, se espreguiçando. Fernando foi o primeiro a ficar de pé e comemorar a vitória no teste de coragem. Pouco depois, eles ouvem passos vindos da escada. Alexandre descia com o peito inflado. Rindo da cara dos garotos, ele diz que tudo não passara de um trote. A revolta não deu vazão ao ódio: eles saíram do salão com cara de quem acabou de fazer algo estúpido, mas divertido. No final de tudo, Marcelo ganhou um amigo - o Eduardo.



Comentários

  1. Ganhar amigos sempre é algo positivo, mesmo que para isso a gente tenha que passar a noite em casebres assombrados - que, vai dizer, é praticamente a mesma coisa que passar a noite cuidando de um amigo com o coração quebrado, e disso, eu entendo.

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  2. Puxa vida, por um segundo achei que um dos meninos ia morrer ali no meio. Do jeito que a narrativa seguiu, parecia ser o desfecho. Ainda bem que não, o final foi bonitinho. :)

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  3. Sabe que, por um momento, eu cheguei a pensar que o Alexandre iria morrer ali no casebre? O desfecho foi um amorzinho. Ganhar amigos sempre é algo positivo, bem como Thay disse bem ali em cima. E no final, além de um amigo, pode até haver a chance de Marcelo ter adquirido seu status de nobreza, ou não?

    @P-eacecraft

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  4. Tudo bem Emilie, fico feliz que tenha gostado dos desenhos :D ahahaha

    Voltei a comentar, nossa tava com saudade disso! AHAHHA
    que delicia de texto, no começo achei que seria aquelas histórias de terror, que alguma coisa acontece, e no final foi bem surpreendente, brincadeiras de crianças que acabou em uma amizade legal :D e amizades verdadeiras começam assim né ^^

    foi bem legal! ahahha
    beijinhos :*
    japona.mairanamba.com

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  5. Gente, gostei. No começo eu me senti num naqueles livros no Pedro Bandeira, onde tudo é cheio de mistério e você fica perdido no meio das coisas, mas dá certo no final, hahaha! Me lembrou muito minha adolescência, naquela época em que estar no grupo dos populares era realmente importante para alguns (eu era dessas que falava com todo mundo, e tava feliz num grupinho pequeno... Na verdade sou dessas ainda, eu acho). Gostei mesmo, você escreve bem e num ritmo muito agradável!

    Sobre o livro do Coben, o título original é "Long Lost" - que faz bem mais sentido do que "Quando ela se foi". Durante a história de fato eu fiquei meio perdida em alguns fatos que vão sendo mencionados, como se a história já rolasse há muito tempo, mas não foi nada que me impedisse de ler. São uns poucos comentários, mas que você entende, eu diria. Não sei ao certo a ordem dos livros (estou com "Desaparecido para Sempre" esperando pra ser lido), mas acho que valem a pena. Eu realmente me apaixonei pela forma como o Coben escreve, é uma delícia de ler cada linha! Caso leia, espero que aproveite tanto quanto eu ♥

    Fico por aqui!
    Beijinhos :*

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  6. Emy (posso te chamar assim?) Acho tão incrível a singeleza de seus contos, sabe? Eles transmitem uma sensação muito boa sabe, sensação de experimentar novamente as simples delícias e temores da infância, que eram tão mais simples e gostosos que os da vida adulta. Por favor, não pare.

    Beijos =*

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  7. Crianças e adolescentes sempre tem essa necessidade de se enturmar e para isso, serem os mais corajosos, etc. É engraçado e querendo ou não, ajuda no crescimento :)
    Adorei o texto!

    Beijos!

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  8. Ele ainda saiu ganhando, apesar de ter passado a noite em um lugar abandonado haha'

    Ficou muito fofo o conto. Sabe, quando a gente tem 11 anos e por aí, fazer parte de um grupo é a coisa mais importante da vida, acho que na idade do Marcelo eu também encararia o casebre só pra participar do grupo. Morreria de medo, mas criança é criança! haha'

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  9. Oi Emilie, gostei do texto! Gosto muito desse ritmo de escrita ^^

    Há mais ou menos um mês atrás você fez uma pergunta no meu blog mas não pude respondê-la. A pergunta foi: "ah, fiquei curiosa sobre essa 'identidade' e 'a transição capilar'. o que acontece com o seu cabelo?"

    R: A transição capilar é um processo para voltar ao cabelo natural. Por muito tempo usei o cabelo alisado mas cortei tudo pra deixar ele crescer todinho de novo, dessa vez com a textura natural. Hoje estou no finalzinho da transição e feliz da vida com o meu black power. O que posso dizer é que a transição é mais do que uma transformação estética, mas é um processo muito mais profundo no meu modo de perceber as coisas, enfrentar as situações e lidar com as pessoas.

    (desconstruindoaspalavras.blogspot.com.br)

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  10. Muito bom de ler esse conto... traquinagens de meninos, hehehe!

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