Lágrima de Osso (Por Antônio LaCarne)

        Cigarro após cigarro & cada baforada emite aquele tom degradê de recusinha, carinha de anjo mal amado sobre a superfície das coisas mais frívolas, meu Deus. Vou emancipar a tal voz que resume coração alheio, coração meu, coração quiçá teu que não me alivia, nem me reveste num casamento de aparências. Mas se eu quisesse bancar o verdadeiro anjo, eu teria uma pobre asa mirrada presa ao tempo motherfucker de putinhos aniquilando ralé versus ralé nas minhas fuças. Domingo preso ao horário transmutado, bater o ponto, os pontos. Seguir na condução enquanto jovens de quinze anos comentam namoradinhos de plantão tão lindinhos, tesudos, jovens. 

              Corro nas ruas tal & qual a imagem que o filme descreve na noite, ali na América do Norte onde jamais, oh jamais eu repousaria tranquilo. Porém a amigona de tempos árduos & resfolegantes utilizou todos os conselhos & recursos possíveis. Ela se cala, muda de assunto como quem esquece de descascar as bananas. Eu também tranco a voz, pois o desgaste na saliva me transportou num barco à deriva quando sofri noites sem dormir & me lancei nas drogas casuais, esfaqueando meu pobre teor romântico a favor de alguma síndrome sem nome. Climão das consequências. 

             Dia seguinte num lago de flores murchas, dear daddy. Você aí parado, divulgando fotografias, cartas alimentadas por erros gramáticas de amor. Todas as dicas, táticas, planos por água abaixo no meu tapete de cinzas, destroços, animais abandonados nas esquinas. Vivenciando cada paixão ao sabor dos humores, tumores enfileirados num rosto tão impróprio às rugas. O fim que eu preciso discutir. Os créditos finais do inferno com jazz ao fundo. Planeta vertigem que dizima o alheio dos olhos. Posicionando-me, talvez, diante do espelho citado relapsamente como um vício ou macumba. De repente a puta realidade que se reveste nas merdinhas. 

            Volto pra casa com os olhos costurados de frieza, como se eu partisse/retornasse ao invés de transitar entre os meios – o desenho do cavalo estampado na almofada sem perdão. & por hora, da janela, tudo é o meu direito à invasão: herói de um só gesto. Braços dados na cartinha de despedida que parabeniza. Perco tudo & por tão pouco me desprendo. Aves de rapina, queridinha. Não me dediquei por demais ao objeto que eu perderia? A culpa monopolizou geral os rostos dos dois amores que me matam de inveja – como se dois cactos, três cactos, infinitos cactos fertilizassem o solo, os solados, os solavancos dos pés. Água na boca da esmeralda, partido alto sem um mero oi ao acaso. Palma da mão perdida no mar onde tudo é âncora. Cigarro após cigarro nos fios de riscos negros da zebra perdida na savana.

Antônio LaCarne,do blog O Impenetrável

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O Antônio foi o primeiro a falar que gostaria de ter um conto publicado aqui. Mas,foi meio que sugestão...eu que insisti..rs! Aliás,se quer um texto postado no Emilie Escreve ,é só mandar para autoradoblog@live.com

Imagem: Ghosts by ~ElifKarakoc 

Comentários

  1. Uau! Que linguagem, narração, descrição impecável! Estou muito surpresa!

    http://florescerepalavrear.blogspot.com.br/
    https://www.facebook.com/florescerepalavrear

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  2. Adorei esse texto, bem profundo.
    só não entendi muito.
    beijos

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  3. Bom,Antônio, eu disse que comentaria quando fosse publicado, e aqui vai:
    Há poesia nos seus contos. Ele é visceral. Tem um quê de decadência. É moderno. Eu adoro a sua escrita,já falei isso?

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  4. Nossa,simplesmente a linguagem usada está perfeita! Adorei!
    vestindo-ideias.blogspot.com.br

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  5. Desculpe, mas eu não entendi :/
    -xoxo

    http://s2juuh.blogspot.com/

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  6. Uau. Demais!

    http://shelikesrockn-roll.blogspot.com.br

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  7. fiquei impressionada com a escrita...

    http://juhhrabelo.blogspot.com.br/

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  8. Uhhhh...que texto mais emotivo e , de certa forma, misterioso.
    Gostei demais da narrativa.
    Beijos <3

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  9. Que texto louco. Gostei da parte dos cactos, me sinto assim, às vezes, perdida e divagando.

    Beijos
    Brilho de Aluguel

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  10. minha querida, nunca abandones este espaço. a tua escrita nunca deixa de surpreender.

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  11. Oie!

    Um pouco depresivo, mas realmente um bom texto!
    Parabéns Antonio =D

    Beijos e uma ótima semana!
    ;***

    anereis.
    mydearlibrary | bookreviews • music • culture
    @mydearlibrary

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  12. para dias em que o café deixa a desejar.
    Adorei o texto.

    Beijo,
    http://dream-after-dream.blogspot.com.br/

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  13. Nossa, mais uma vez a sensação que fica ao ler um texto do Antonio é essa de " uau o que foi que aconteceu?!", meio tapa na cara, meio choque de realidade, meio delírio-loucura. O mais legal é ver as sensações que os textos dele provocam nas pessoas. É isso, aí, baby! continue o bom trabalho, continue relevante! :)

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  14. Adorei o conto, muito bem narrado e escrito, adorei! beijoos

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  15. Muito bom! Achei um pouco pesado, mas mesmo assim, estava muito bom :)

    Beijos
    macaaverdee.blogspot.com

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  16. interessante...
    confesso que nao gostei muito
    achei pesado como já diz o comentario acima e muito complexo
    tanto que li e reli umas três vezes e sempre no meio me perdia
    e olha que sempre leio e leio livros mas este poema/conto eu nao consegui acompanhar
    ainda prefiro o da abelha suahsuahsuahsuahsuas tava bem fofinho
    um bj

    radiopires.blogspot.com

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  17. Poxa, que bonito que ele escreve, D eum jeito diferente :)
    bjs
    naquelemomentoeujuro.blogspot.com

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  18. Curiosa a forma como ele escreve, lembrei!
    Já conheço o blog do mocinho!

    Tecido_Doce
    Twitter
    Sorteio

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  19. Conto perfeito, acho bonita a forma como ele escreve.
    "cartas alimentadas por erros gramáticas de amor."

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  20. O texto é interessante, mas e daqueles que precisamos estar em um ambiente bem tranquilo e com a cabeça leve para ler.

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  21. Uau, que texto! Adorei o conto, foi de tirar o fôlego!

    Marina Alessandra do blog Maior de Idade
    @mariinaale
    @maioordeidade

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  22. Hello fio, confesso que esse é um conto bem complexo, o que não é problema para mim já que eu curto essa pegada mais formal. Parabéns pelo texto, escrita tão boa quanta á história. Xero - http://pireidevez.com

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  23. Adorei a forma da escrita. Amo textos rebuscados, bem escritos. Ótimo conto.

    O mundo sob o meu olhar

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  24. Fiquei triste depois de ler, mas gostei justamente por isso, gosto de textos que me tocam.
    Muito bom!!


    http://inspiracaoentrelinhas.blogspot.com.br/

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  25. Tão complexo que não entendi muito bem.
    É difícil escrever assim, parabéns!

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  26. Legal.
    Qualquer dia desses mandarei um texto pra tu publicar :)

    beijos.

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  27. uau! Gostei ein! Parabéns para o Antônio, escreve muito bem :)


    Adolecentro

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  28. Puta que Pariu! - desculpa o palavrão, btw, consigo identificar um texto do Antônio aonde for, menino genial <3

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