
Jade, a tímida curiosa. Nasceu no botequim em que vive até hoje, gerenciado por sua mãe, Maria. Um lugarzinho pequeno, com dois andares: Um para os negócios e outro para a moradia. Com gênio forte, era fácil arrumar confusão quando alguém bebia demais da conta. Felizmente nada de grave aconteceu. Nada que a mãe houvesse contato até o momento. Na verdade, uma mulher desconhecida, vestindo apenas fiapos e fedendo a esterco entrou no estabelecimento certa vez. Maria ainda estava grávida da menina, mas insistia em trabalhar, mesmo tendo um funcionário. A mulher pediu um drink, porém não queria pagar, apenas mandar as mágoas guela abaixo. Maria apontou para a placa “Não faço fiado”. Placa é um exagero, não passava de um pedaço de papel sulfite. A mulher insistiu. A dona do bar também. A estranha, irritada, balbuciou e ergueu os braços esqueléticos, lançando uma maldição sobre a empresaria. “A criança que espera, ao aniversário de 10 anos, o tempo irá parar às 12 badaladas, e presa eternamente à sua noite especial a garota ficará”. Não compreendendo, a mãe tirou a conclusão de que a velha havia bebido o suficiente.
Chega a véspera do dia. Maria nem se recordava mais do acontecido. A criança procurava não demonstrar a óbvia ansiedade, mas mãe que é mãe sabe. Levou a menina até a escola. A criança, ainda, não havia feito amiguinhas. Maria torcia que pelo menos uma ou duas, entretanto nunca ouviu algo sobre então preocupava-se muito mais. Quase nunca ouvia uma palavra de sua filha. E, diferente de sua abordagem com outros, era muito carinhosa e meiga com a pequena. Muitos diriam que é uma pessoa totalmente diferente. 10 anos se segurando, esperando que a filha se abra. Sempre parecia conhecer tudo e todos, mas nunca dava um passo em direção a seus objetivos. Talvez se preocupasse demais com o coração das pessoas. Talvez se preocupasse demais com o próprio coração. O medo de fazer algo errado e entristecer alguém parece plausível. O de se machucar também. Chega a noite. Voltando dos estudos com a mãe, Jade chorava e lamuriava. Tentou de tudo para compreender o que acontecia, mas a criança não abriu a boca. Sentindo ser a gota d’água, gritou como nunca antes com a menina. Nunca tendo sido tratada daquele jeito pela mãe, chorou ainda mais e correu. Entrou no botequim e subiu direto ao quarto, trancando a porta. Ficou a tarde toda encolhida na própria cama, pensando nos acontecidos da escola. Em como ela incomodou a mãe por tanto tempo, o que a fazia sentir-se pior. Resolveu levantar e sair do quarto para se desculpar. Era meia noite já, mas não custava acordá-la só para isso. Sem falar que com o aniversário aí, ela entenderia.
Saiu do quarto. Estava tudo muito quieto. Os relógios pareciam não funcionar, todos parados. Uma luz roxa atravessava as janelas. O quarto da mãe, vazio. Cozinha, banheiro. Nem no andar dos negócios a mulher se encontrava. As portas estavam trancadas por dentro. Medo. Não queria sair sozinha, mas estava preocupada com a mãe. Respirou fundo, engoliu seco e fez o que ela mais evita: Se arriscar. Atravessou a saída. O céu roxo, com nuvens imóveis. A Lua como uma grande pérola lá no alto, sem se mexer, parecendo fitar tudo atentamente. As pessoas paralisadas, num tom monocromático, não respondiam à garota. Tropeçou nos próprios pés e ralou o joelho. Quando ia começar mais uma sessão de choradeira, ouviu um grito. Um grito misturado com um rugido. Levantou ignorando o machucado e seguiu o som. Entrando em um beco, encontrou um raptor vermelho, com asas, preso em um monte de entulho. Alguns pedaços de metal enferrujado atravessaram-no e o prenderam. A tímida, apesar de assustada com a criatura, ficou horrorizada e com pena de deixá-lo por lá, sangrando. Chegou perto e usando o próprio peso puxou as estacas do coitado. Para o bem dele, não atingiram nenhum ponto vital. O dinossauro levantou e agradeceu a garotinha. “Eu sou Raptor” se apresentou ele. O nome óbvio não impediu a garota de se preocupar mais com os ferimentos, porém o dino disse que ficaria tudo bem, ele se recuperaria em breve.
A menina se despediu, seguindo de volta a busca da mãe. Raptor ia logo atrás dela. Pensou em parar para perguntar o que o sujeito queria, mas depois da dor que ele passou lá atrás, deixou como estava. “Você vem sempre aqui?” perguntou o alado. Jade continuou caminhando em silêncio. O dino estranhava a presença de uma humana na Terra da Meia-Noite. Mais uma vez, a atrapalhada tropeçou, ralando o outro joelho e piorando o primeiro. Ficou no chão por um momento, segurando o choro por toda a situação. A mãe sumir, tudo estranho, monstros. A última coisa que ela queria era chorar como sempre. Raptor abocanhou a blusa da menina e a puxou para suas costas, pedindo para segurar firme em seu pescoço. Enquanto era carregada pelo bondoso, notou que seus ferimentos sumiram completamente, como se nada tivesse acontecido. Abriu um leve sorriso e abraçou forte o bicho, sabendo que ajudou alguém. Parece que se arriscar de vez em quando não é algo tão ruim, mesmo que as probabilidades estejam contra você. Agora é encontrar Maria.
Imagem: Dark Hour Clock/ShinMegamiTenseiPersona3/Atlus