Postagens

Dois gatos

Imagem
O capacho encharcado de sapatos molhados da chuva. A casa abrigou quatro pessoas naquele inverno. O vento acariciou as ramagens do quintal e, em seu assobio poderíamos ouvir “Acalentem-se”. Rodrigo entrou no quarto com o casaco de Eduardo, o qual se aninhava no colo de Vitória na sala. O invasor tapou minha vista numa tentativa de “adivinha quem é?”. “Perfume barato, voz chata... Não tenho ideia, Rodrigo”. Sorrimos. Seus braços me cingiram. “Boba”. Estávamos juntos há tanto tempo... Já pensavam que éramos casados. Não, ele não está me enrolando... Apenas... Nossas vidas eram complicadas demais para nos amarrarmos um ao outro. 
Somos como gatos, precisamos de liberdade... Mas, como todo gato, nos esfregamos em busca de carinho, uma atenção, um alimento... ”Miau”, olhei pedindo um afago. Ele fez um movimento sutil com a cabeça – a encostou na minha, ronronou, fechou os olhos. Ah sim, como dois gatos. Nada de subserviência. Donos do nosso próprio nariz. Dois equivalentes, da mesma raça, …

Focinho

Imagem
O fato é: segunda pela manhã terei trabalho e não poderei ir. Quem sabe minhas patas possam digitar uma ou duas frases, e as pessoas me reconheçam ao olhar no fundo dos meus olhos. 
...
Não há diferença entre terças, agosto, tarde ou manhã. Acordo, faço minha ronda à procura de comida, corro de veículos, me afasto ou me aproximo de humanos. "Humanos...". Onde está a humana que fui? Na dúvida não sou nada agora que não posso distinguir se é sexta ou sábado.
...
É dia. O sol bateu no meu rosto, e encontrei um filhote. Mantive-o junto a mim.
...
"É óbvio que emagreci, pequeno. Essa pelugem esconde meu corpo."
...
Achei uma caixa, pus o pequeno e adormeci junto a ele. 
- Ela tá bem?
Humanos me encaravam com curiosidade. Crianças apontavam pra mim. Adolescentes riam. O filhote não parava de miar. Tentei falar, como fiz outras vezes onde o resultado eram pensamentos e nenhuma palavra audível, e algo aconteceu. Era a minha rouca voz novamente. Percebi, enfim, que estivera…

Teto de verniz

Imagem
Desbotado. Sem cor. Quase transparente. “Dá para ver o azul celeste daqui. Venha Juan, veja isso”, ela aponta. O teto de verniz. Sem pintura. Apenas passado verniz, dando um aspecto incomum. Vidro. “Imagine só, dá para ver mesmo”, diz fingindo estar surpreso. “Isso dá assunto para uma de suas histórias”. “Não confunda inspiração com falta de ter o que fazer”. “Insensível”, ela resmunga. “Não posso tirar inspiração disso, Keite”. “Você é chato!”. “Keite vá ajudar a mamãe e me deixe trabalhar”. “Mamãe está no jardim. Ela não gosta que eu a ajude”, diz olhando para os pés. “Isso porque você sempre dá um jeito de matar as flores dela”. “Mas é que elas são muito frágeis... Não é culpa minha”. 
“Keite, estou tentando me concentrar”, diz passando o polegar e o indicar de ambas as mãos nas têmporas. “Eu já disse que o teto de verniz é uma boa ideia...”. “Keite....”. “Eu já vou sair..”, ela sai e fecha a porta com cuidado. Fica na ponta dos pés. Como pode ser tão pequena tendo quatro anos? Mam…

Momento

Imagem
As caixas de som ligadas no máximo e pessoas com taças na mão. 
Eduardo fora por ir, sem pretensão de que algo acontecesse. Afinal, apenas acompanhou amigos e dividiu sorrisos amarelos. Dançava com as batidas rápidas da música eletrônica. 
Evelyn gingava com os braços pra cima, sentindo o efeito da bebida alcoólica. Perdera parte de seu juízo e ficara depois que suas amigas se despediram. O vestido justo, o cabelo molhado, a roupa suada. O calor da cidade. Um espaço de poucos metros distanciava os dois. 
Eduardo se deteve um instante e olhou para a mulher que erguia uma taça vazia enquanto dançava. Riu. Havia algo de bom em se estar bêbado na noite de ano novo, supôs. A luminária focou na moça. Ela parou, fechou os olhos e sorriu. Uma garota segurou o braço da linda moça e a conduziu para fora da festa. O observador a seguiu, se esgueirando entre os corpos suados. Deixou sua bebida no balcão e correu. 
As duas entraram num táxi e partiram. Ele passou a mão no cabelo. Perdera a chance.…

Pretérito perfeito

Imagem
As linhas do tempo correm. Os pássaros da alvorada sempre voam sob minha cabeça. Fazem ninhos nos meus cabelos e se deixam ficar. Quando os pássaros se forem não serei mais quem sou. Nem serei tão sonhadora. Atriz em palco real. Os pensamentos poderiam cessar em tal constância. O relógio poderia emperrar para eu lembrar de como cresci. 
Nem pude notar. As pernas não são mais pequeninas e desajeitadas. Os sapatos apertados, deixei há tempos...Esqueci-me das roupas. Dos vestidos que vestia com tanta obediência. De como fora doce o amor que senti pelo vizinho que partiu. Das brincadeiras de criança no quintal de casa. Das poucas roupas que, como criança, me dava ao luxo de usar. Simples roupa de baixo. Da casa que tomava ares de casarão. De como ser caçula me dava privilégios de “filhinha da mamãe”. Dos sonhos que esperei concretizar. Do príncipe encantado que nunca apareceu... Das horas de estudo na escola. Das judiações também. Das rixas entre irmãos. Das histórias em quadrinhos que f…

Pequenas coisas

Imagem
- Atos independem de coisas. A dedicação independe de atos alheios. Gosto das pequenas coisas. Sou contra “se comprar” alguém para conquistar. Gosto de provar o valor de alguém através dos meus próprios esforços. Uma canção tocada e cantada ao violão, ou à acapela, vale mais do que mil caixas de bombons. Uma declaração vale mais do que um buquê de flores. A constância no que chamamos “visita” também conta. Atos são mais importantes que presentes. Porque o Amor não pode ser comprado.
- É por isso que você vai à casa dela? - Uhum. - Mas...tão cedo? - Nove horas é um ótimo horário para se acordar. - Você a ama mesmo...? - Mais do que qualquer outra garota que já tenha passado pela minha vida....Ela pulsa em mim... - Para mim, isso é só empolgação. - Não é, e você saberá em breve. - Sério que é contra se comprar alguém?  - Sim. - Mas presentes são importantes.... - Só quando tem utilidade. Claro que só compro quando vejo que é algo almejado. Como naquele dia em que te dei aquele livro,le…

Al

Imagem
Warning: abuso e mutilação. Não leia se for um trigger pra você. Tem capacitismo também. Compus algo realmente estranho, me desculpem por isso ToT. #me_sinto_embaraçada. Façam melhor, leiam a série do Felipe ("Não Existem Príncipes Encantados").
O mesmo barulho de todas as noites. O ensurdecedor ruído noturno. Alberto cobria os ouvidos na tentativa de esvaziar a mente do que escutava. Passos de quem calça botas pesadas e baratas. Havia algo de natural no costumeiro barulho, ele sabia reconhecer. Um, dois, três, quatro, cinco, seis - toc toc. "Acorda, coisa feia!". 
Ele gemia como um doente e chorava tal criança sem mãe. "Cala a boca! Cala a boca, seu velho surdo! Eu já ouvi!". O homem chutou a porta e arrombou sem esforço, madeira antiga cede rápido. Pegou o rapaz pelos cabelos e arrastou à cozinha. "Me escuta, quem disse que você tinha que dormir?". O menino continuava com os ouvidos tapados. A boca serrada para segurar o choro. 
Alberto fazia d…